quarta-feira, julho 26, 2006

Momentos

Image: Ben Heys

Esta angustia não esperada
Muito menos planeada
Invade-me uma vontade indisfarçável de me mascarar
De gargalhar, de disfarçar e meu cérebro enganar.
Sim, assumir sub-repticiamente uma expressão alegre e seduza o pensamento
E o meu corpo sinta. Sinta e eu finja.
E dissimule… consiga ultrapassar a dor desta angústia que teima e quer ficar

terça-feira, julho 25, 2006

Cânticos

Image: Mary Stebbins

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.
Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

segunda-feira, julho 24, 2006

Caloust Gulbenkian


CALOUSTE SARKIS GULBENKIAN, fundador da Fundação Gulbenkian foi, no seu tempo um investidor na área do petróleo, onde ficou conhecido como o senhor "cinco por cento". A sua paixão pelas artes, levou-o a juntar uma colecção única no mundo que se encontra reunida no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Chegou a Lisboa em plena II Guerra Mundial, onde acabou por se instalar até à sua morte, em 1955. Filantropo, deixou parte da sua fortuna à Fundação com o seu nome, cuja missão, estabelece objectivos caritativos, artísticos, educativos e científicos.

domingo, julho 23, 2006

ai Israel, Israel...

Image: Incursão militar de Israel no Líbano

De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entra lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e partiste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das aguas e do vento.

De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóbada inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volúpia da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansasse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluído lentamente
no mais palácio
silente
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda oiço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.

O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.

O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.

José Fanha


sábado, julho 22, 2006

Nunca é tarde

Image: Andreas Heumann

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas a noites que nos precederam
Era a noite mais clara daquelas que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

Ary dos Santos

sexta-feira, julho 21, 2006

Sonhos de Sempre

Image: Roman Pyatkovka

O que é bonito neste mundo, e anima,

É ver que na vindima

De cada sonho

Fica a cepa a sonhar outra aventura...

E que a doçura

Que se não prova

Se transfigura

Numa doçura

Muito mais pura

E muito mais nova...

(Miguel Torga)


quinta-feira, julho 20, 2006

Parabéns

Image: Mary Stebbins

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Alexandre O'Neill
Dedico este poema à mulher da minha vida, Tucha Farinho.

quarta-feira, julho 19, 2006

Maternal

Image: Haleh Bryan

Não me apetece dormir
Apetece-me escrever
Mas as horas passam
Com os minutos a correr

Já não sei o que escrever
Alguma coisa há-de sair
Escrevo pequenas palavras
Até o sono estiver a cair

O “João-pestana” já lá vem
Devagar e de mansinho
As minhas crianças já dormem
Um abençoado soninho

Durmam bem meus bebés
Que amanhã é outro dia
Vou acordar de manhã
E tratar de vocês com alegria

Agora vou dormir também
Um soninho descansado
O “João-pestana” já chegou
E de sono vem carregado

SF

terça-feira, julho 18, 2006

Ute Lemper


Apresenta-se com regularidade nos principais palcos europeus e efectua digressões anuais na Austrália, no Japão e na América do Sul. Vive em Nova Iorque, como os seus dois filhos.

quarta-feira, julho 12, 2006

Manuel Maria Carrilho


"É sempre muito adiante que se sabe o que ficou para trás."

terça-feira, julho 11, 2006

Pedro Santana Lopes


Um ano e meio depois de perder as eleições legislativas, o ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes voltou recentemente ao Parlamento como deputado do PSD, garantindo que regressa para "ajudar" e não para incomodar.

domingo, julho 09, 2006

Eclipse lunar


Sem remédio

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela Espanca

sábado, julho 08, 2006

Olhares cibernéticos


Neste mundo…

O mundo da comunicação cibernética
… real!
A “realidade virtual”
Onde não há fonética.

Arranjei um amigo!
Dirão alguns.
Uma amiga!!”, dirão outros.
É a virtude… Na sua intrínseca virtualidade...
Bem real…, mas virtual.

Renovação dos tempos…
... Não haver comunicação igual
Futuro que entra por nós dentro
O deste mundo… “real”.

… Mas eu pergunto:
Se foi acrescento o que nos trouxe o evento
Ao Mundo Social?
… Já que é real!

Ao Mundo onde nem há pão nem razão…
Ao Mundo real.

Como serão a mudança de tempos
Quando esse Mundo… passe a virtual?!
O Mundo real, fatal.

… Não tenho respostas
Ninguém me diz nada!

… “Nós somos a resposta!!”.

… Nada.

Que comunicação desigual…
Essas
As que são reais
As desnaturais
As ilegais e até as virtuais
Essa
A que não recebe resposta... mas que é real.






NOTA:
Impõe-se que se faça uma referência de apreço aos Autores: “UM LIVRO DE SONHOS”, "RAQUEL" e “EMOÇÕES” que se publicam neste espaço virtual, mas real.

Blogers, que me proporcionam excelentes momentos de reflexão
A sua riqueza literária;
A majestosa mensagem de humanidade que encerram.

sexta-feira, julho 07, 2006

Magica Sedução


Image: Gregor Samsa
A magia da noite...
Noite de Luar... sem lua,
Na rua
Sem noite

Na tua magia…
A troca…
Por ambos partilhada
Sem troca... mais nada

Encontras-te ali...
Tal com eu
Na Lua
A mesma noite de Luar...
Sem rua

quinta-feira, julho 06, 2006

Fulgor

Image: Elena Shumaeva

Ó grande plenitude!

E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.

Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras…

Este cacho de curvas que é o teu corpo


David Mourão Ferreira

quarta-feira, julho 05, 2006

Rosto


Se a Selecção Nacional, representada pelo seu líder, Scolari, o grande general, jogar no próximo Sábado é suficiente para se candidatar ao "pódio";

Se ganhar hoje, é muito bom;

Se ganhar a Copa 2006, no próximo Domingo, será excelente.

terça-feira, julho 04, 2006

Vinicius de Moraes



De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

segunda-feira, julho 03, 2006

Pablo Neruda


Acontece
Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou,
sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!

domingo, julho 02, 2006

"Il Ritorno"




"Tudo que eu entendo,
entendo apenas por causa do que eu amo".

Leon Tolstoi

sábado, julho 01, 2006