quinta-feira, maio 11, 2006

Caminhos



"Longe dos estridentes

risos dos homens, a nossa

vida secreta movia-se."

Carol Ann Duffy - n.1955

quarta-feira, maio 10, 2006

Harmonia


No desprendimento revela-se o conhecimento da incerteza…
no conhecimento da incerteza revela-se a libertação
do passado, do desconhecido,
da prisão da circunstancia do passado.

E pela vontade de entrar no desconhecido,
no campo de todas as possibilidades,
entregamo-nos ao espírito criativo
que orquestra a dança do universo.

Deepak Chopra
(cientista e médico)

terça-feira, maio 09, 2006

Maternidades e Ambiguidades

O Governo de Portugal liderado pelo Secretário-geral do Partido Socialista, José Sócrates, prepara-se para desincentivar os casais, com idade para procriação, em usarem contraceptivo durante o acto sexual. – Não. Não é brincadeira!

De futuro, os casais que tenham menos de dois filhos serão penalizados na sua contribuição para a Segurança Social. – A medida foi anunciada recentemente em nome da absoluta necessidade de ter que se provocar uma explosão demográfica elevada no País para que fique assegurado o sistema financeiro da segurança social no sentido de que o mesmo não entre em falência efectiva daqui a 50 anos.

Parece incrível mas não é. - A partir do momento em que, como é sabido, a maioria dos jovens casais não têm filhos porque não podem, face ás dificuldades que enfrentam em obter sustentação económica e financeira adequada nas suas vidas, é estranho pensar que a medida anunciada venha a produzir os resultados esperados, a não ser que a taxa de agravamento seja tão atractiva que valha a pena uma tão vertiginosa mudança de atitude.


Por outro lado em nome da reunião de recursos financeiros que o Estado encetou com vista a baixar drasticamente a “despesa pública” está em marcha o encerramento de nove Maternidades em todo o País!!!
– Mas… mas então a explosão demográfica que se requer não exigirá que as Maternidades se mantenham abertas e melhor preparadas para darem a cobertura adequada ao evento?! - Como é que vai ser???? - Os futuros “rebentos” fabricados em Elvas passam a nascer em Badajoz?! – Terão nacionalidade portuguesa e naturalidade espanhola ou apenas nacionalidade europeia?!

Ora, se as pessoas passarem a reproduzir mais, como é que o farão melhor sem o indispensável apoio hospitalar?!
– Fico com a ideia de que se está perante uma enorme ambiguidade.

segunda-feira, maio 08, 2006

Competência


Paulo Bento foi indiscutivelmente o grande vencedor ao ter demonstrado uma excelente liderança disciplinar e técnica que impôs ao Sporting Clube de Portugal na segunda parte do campeonato para a liga de honra, momento em que tomou conta dos destinos futebolísticos da equipe na época de 2005/2006 e ter conquistado assim o segundo lugar.
Os “leões” estão de parabéns merecendo por isso um forte aplauso.

domingo, maio 07, 2006

Esta noite...


A noite passada sonhei com meu pai e com o seu primeiro automóvel (Vauxhall Velox), igual ao da foto, com a matricula CI-18-14. Eu tinha seis anos de idade, quando foi adquirido. - Foi uma festa... belas recordações.

sábado, maio 06, 2006

Ousadias



Adoras deitar-te na nossa cama desfeita.

Os nossos suores antigos não te incomodam.

Os nossos lençóis encardidos por sonhos esquecidos

os nossos gritos estampados no papel da parede

tudo isso exalta o teu corpo esfaimado.

O teu rosto desairoso ilumina-se então,

e os nossos desejos de ontem

são os teus sonhos de amanhã.

Joyce Mansour - escritora francesa

sexta-feira, maio 05, 2006

Mãe


Mãe
Há só uma
A nossa
Mais nenhuma

quinta-feira, maio 04, 2006

Bebamo-nos uns aos outros



A vida deve ser bebida
Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo
Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar
Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão
Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira
A vida (ensinaram-me assim)
Deve ser bebida

Mia Couto
(poeta moçambicano)

quarta-feira, maio 03, 2006

O começo da tragedia


Mar

Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.
Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.
E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

Vinicius de Moraes
(poeta brasileiro)

terça-feira, maio 02, 2006

Querida filha


"Criar uma criança é a maior forma de amor que um humano pode experimentar".

(Marsha Rock)

segunda-feira, maio 01, 2006

Apelo


Urgentemente
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas
e rios e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade
(poeta português)

domingo, abril 30, 2006

Mistério


"Odeie o pecado e ame o pecador"

Mohandas Karamchand Gandhi
(fundador do Estado Indiano)

sábado, abril 29, 2006

Hermeticamente fechado


1973
Ultimo 1º de Maio do Estado Novo

A história que aqui vou escrever remonta à data de 1 de Maio de 1973. É uma história sobre um terrível acontecimento que eu presenciei

Como é sabido, no calendário de feriados nacionais do regime instaurado em Portugal pelo gole de Estado de 28 de Maio de 1926 não constava o Dia do Trabalhador. Durante o Estado Novo, regime imposto por Salazar com a entrada em vigor da Constituição de 1933, em que as manifestações do “Dia do Trabalho” eram organizadas e controladas pelo Estado que tinha o controlo governamental dos sindicatos, o 1º de Maio não era também considerado dia descanso nacional.

O cidadão, contudo, cada vez mais inventava pequenos truques para clandestinamente assinalar aquele dia… Havia também quem de forma mais ou menos clara e organizada fizesse questão de demonstrar a sua insatisfação.

No dia 1 de Maio de 1973 morava, eu, em Campo de Ourique e tinha 17 anos de idade. Apesar de ser dia de trabalho, não fui trabalhar (não me recordo já porquê). - Sai à rua para ir tomar o pequeno-almoço por volta das dez horas ao Café, que ainda hoje tem o mesmo nome, “A Tentadora”. – Preferi a esplanada (ainda hoje quando lá vou a prefiro). Não foi necessário pedir nada. – O empregado já conhecia os meus gostos e trouxe-me o habitual galão e o caracol com manteiga e fiambre. – Deu-me os bons dias e questionou-me:

Por aqui a esta hora?! - Já viu o que é que aqueles tipos andam a fazer aqui á volta?

Olhei á nossa volta e rapidamente me apercebi que de facto havia na rua uma movimentação pouco usual! – Eram rapazes e raparigas estudantes mais ou menos da minha idade que, individualmente (não eram autorizados ajuntamentos), abordavam as pessoas que por ali passavam, registando as suas respostas, uns em papel, outros em gravadores de voz que traziam á tiracolo.

Não fiz comentários… – Naquela época qualquer comentário a propósito podia ser mal interpretado, para além de nunca se saber com quem se estava a falar… – Acção estudantil arriscada…!!! - Pensei.

De repente, eu e todas as outras pessoas que se encontravam naquela esplanada, tivemos de abandonar o local e de nos refugiar dentro das instalações do Café, perante a chegada abrupta de diversas carrinhas de onde emergia um avultado número de “polícias de choque” e de cães treinados para aquele tipo de agressão. – O absurdo instalou-se…

Pessoas a caírem no chão empurradas pelos cães e pelas bastonadas infligidas. - Uma rapariga que teria 15/16 anos de idade foi atirada para o chão junto à porta da florista, mesmo em frente ao Café, o cão que a fez cair só a largou quando, com os dentes, lhe arrancou um pedaço de uma mama, depois disso foi ainda brutalmente espancada à bastonada.

Triste dia este…
Que me marcou para toda a vida. A marca de um “espaço fechado e de um lugar de infelicidade” como era Portugal.

sexta-feira, abril 28, 2006

Arbítrio


Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen
(poetisa portuguesa)

quinta-feira, abril 27, 2006

Eternidade


"É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher toda a vida, quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música".

Honoré de Balzac
(romancista francês)

Nações


Чорнобиль

Chernobyl significa artemísia, uma planta medicinal que entre nós, portugueses, é conhecida por erva de São João. - Não é, contudo, desta planta que agora vou escrever, mas do seu nome. - Relaciono-o com o discurso político recente para a eventualidade de vir a ser instalada em Portugal uma central nuclear para produção de energia em substituição do petróleo.
Chernobyl, cidade Ucraniana, perto da fronteira com a Bielo-Rússia, foi há vinte anos palco do maior acidente nuclear da história da humanidade. Prevê-se que a tragédia venha a provocar a morte a 200.000 pessoas em todo o mundo, segundo estudos científicos sobre o assunto.
É conhecido o risco que se corre com a opção por este tipo de produção energética. No passado verão em Espanha, por exemplo, a ala de uma das suas centrais teve de ficar completamente imobilizada devido ao aquecimento que água destinada ao arrefecimento dos reactores sofreu devido á temperatura do ambiente e que poderia provocar sobreaquecimento e posterior explosão.
São, também, conhecidos os elevados custos directos de produção que esta actividade acarreta para além de outros indirectos, como são, por exemplo, os inerentes á manutenção de um sofisticado sistema de segurança para prevenção de eventuais ataques terroristas. - Feitas as contas, há especialistas que chegam á conclusão que o preço final do produto não beneficia em nada o consumidor… antes pelo contrário.
O elevado número países com acidentes nucleares é conhecido; - Brasil, EUA, México, Japão, China, Marrocos, Inglaterra, Alemanha, Itália, entre outros.
No âmbito da saúde das populações pode-se contar com a sua degradação. - Degradação provocada pela consequente criação de zonas ambientais de poluição radioactiva
Temo que em Portugal não haja bom senso sobre esta matéria e não se reflicta profundamente sobre todos os potenciais riscos conhecidos avançando-se assim para a criação desta preocupante solução de energia em vez de se investir forte e seriamente nas alternativas ecológicas.
Estou a ficar preocupado… muito preocupado! - Por tudo isto quero dizer já e agora:

ENERGIA NUCLEAR EM PORTUGAL???
NÃO, NÃO E NÃO!!!

terça-feira, abril 25, 2006

Abril


Soltam-se as amarras


“A Vitoria é muitas vezes uma coisa a prazo e raramente
é o culminar da coragem.......
O culminar da coragem, penso eu, é a liberdade.
A liberdade que vem de saber-se que nenhum poder
no mundo é capaz de quebrar-nos;
Que um espírito inquebrantável é a única coisa
sem a qual não podemos viver;
que, no fundo, é a coragem da convicção que move o mundo,
que torna possíveis todas as mudanças.”


Extraído do livro do médico, pintor, músico e escritor Fernando Chiotte
(parafraseando Paula Giddings)

segunda-feira, abril 24, 2006

Linda manhã

25 de Abril de 1974


Naquele dia…Contava eu 18 anos de idade. - Solteiro, trabalhador estudante, vivia em casa de meus pais.
Como sempre fazia, saí de casa pela manhã com destino ao emprego, cujo trajecto fazia a pé. Ao chegar a Amoreiras, em Lisboa, deparei-me com um enorme aparato militar, para a época.

Manobras militares em Lisboa?!! – Pensei.

Atravessei a rua.

Ao chegar ao passeio do outro lado da rua fui abordado por um militar graduado…
- Bom dia, para onde vai?
Vou trabalhar, respondi-lhe.
- Em que local?
Em São Sebastião da Pedreira. Trabalho no Hotel do Reno, disse-lhe.
- Onde reside?
Aqui mesmo, na Silva Carvalho.
- Volte para casa ligue a telefonia e fique com atenção às notícias.
Há algum problema?! – Perguntei-lhe.
- Siga o meu conselho, volte para trás e não saia de casa.

Assim fiz. – Naquela época era de todo desaconselhável não seguir as instruções da “autoridade”, como eram conhecidas as forças armadas e a polícia. Não senti, contudo, da parte daquele militar qualquer tique de autoritarismo, mas nunca se sabia… A coisa parecia séria!
Minha Mãe já sabia o que se passava. - Ficou aliviada quando me viu entrar em casa.
Fiquei atento ás notícias. Mas nada! A única coisa que se ouvia eram marchas militares.
Quis ir ter com meu Pai ao estabelecimento comercial que ele tinha lá em Campo de Ourique mas minha Mãe não deixou.
Finalmente lá ouvi:
“Daqui posto de comando …….”
O discurso foi extraordinário! Percebi tudo! - Era princípio do fim da ditadura!
Fui ter com meu Pai que se regozijava pelo evento. – Recordo-me de seus clientes o terem avisado para ter cuidado com o que dizia, pois a ditadura ainda não tinha caído.

Na rua já se viam pessoas a buzinar em seus automóveis e a exibiram a bandeira de Portugal. – A alegria instalara-se!
Foi um dia maravilhoso… Ao longo do dia todos tinham uma opinião a dar sobre o assunto embora ainda com receio de que alguém ligado à PIDE/DGS estivesse a ouvir.

Nos dias seguintes assistiu-se á distribuição de comida e café aos militares que estavam na rua e á libertação dos presos políticos. Na semana a seguir à revolução o primeiro 1º de Maio livre em Portugal. – Dia que recordo com muito agrado.

Passaram-se os dias, as semanas e os meses…

Saímos de uma… e estamos a entrar noutra…?! – Pensei.
Quero lá saber se a ditadura é a do proletariado… - Disse.

Passaram-se anos…

Hoje,
Trinta e dois anos depois daquele militar graduado me ter dado a notícia, estou contente por todos termos consolidado a democracia.


VIVA O 25 de ABRIL

domingo, abril 23, 2006

Recolhimento


Intimidade

Que ninguém
hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.

Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

Fernando Namora
(escritor português)

Aceitação


"Nunca julgamos aqueles a quem amamos"
Jean-Paul Sartre
(Escritor, Filósofo)